Ludopédio Sociedade Anônima*

O futebol é um esporte em que o desastre é iminente: a catástrofe está sempre à espreita nesta modalidade esportiva em que o empate — e mais que isso, o zero a zero, o famoso oxo — é não apenas possível como frequente. Qualquer partida, mesmo aquela entre duas grandes equipes, corre o risco de ser pífia.

Mas o futebol sobrevive. E ganhou dimensão mundial, alcançando países tradicionalmente refratários a ele, como os Estados Unidos, e culturas que não levavam jeito para bola mas aprenderam a dar três passes certos consecutivos, como os orientais: Japão, Coreias, China. O fanatismo antes restrito a países como Brasil, Itália, Inglaterra, Argentina e demais sul-americanos globalizou-se. A África era a última fronteira a ser desbravada, o que finalmente aconteceu, em nível mundial, em 2010 (a Copa coroou e “oficializou” o processo, que obviamente vinha de antes).

Por que logo o futebol, se o esporte é tão imponderável e flerta com a chatice com tamanha frequência? A questão é ainda mais intrigante quando se pensa que a morte do futebol-arte é anunciada há duas décadas — desde pelo menos a Copa de 1990, em que o nível técnico caiu muito se comparado, sem ir muito longe, às duas competições anteriores.

A Copa de 94 reafirmou a sensação de uma crise profunda no esporte mais popular do planeta. A final de 94 escancarou o processo de vitória dos resultados: zero a zero no tempo normal, disputa de pênaltis, o melhor do mundo à época, Roberto Baggio, desperdiçando o penal, o Dunga levantando a taça. Sim, Romário estava lá e ganhamos o mundial por conta do atacante. Mas foi uma catástrofe anunciada: final de Copa terminando em oxo era o desfecho inevitável da era Dunga.

Cá chegamos, dezesseis anos depois, em nova era Dunga. Melhoramos? Pioramos? Ambas as coisas. Duvido, por exemplo, da ideia de que a massa de talento tenha diminuído. Os jogadores desaprenderam? Não se fazem mais craques como antigamente?

Não, a questão é que a pressão hoje é tão grande sobre os jogadores que eles não são capazes de suportar o circo midiático levantado em torno do esporte. E o próprio circo alimenta a ideia de que o futebol já não é o mesmo, mas pode voltar a ser o que sempre foi. A TV, a internet, os jornalistas em geral alimentam o culto messiânico ao esporte, sem confessá-lo. Este ano, em 2010, assistimos a um crescendo de tecnologia: não bastassem o replay, a câmera lenta, o tira-teima, temos agora a tosca animação em 3D, on-line, e os comentários em tempo real, no tweeter e demais comunidades virtuais.

O que aconteceu para chegarmos a esse nível de mistificação, com roupagem moderna?

É evidente o sentimento de que o futebol-força sobrepujou o estilo bem jogado. Além disso, o futebol de resultados ganhou terreno e os craques hoje estão condenados a provar sua condição de excelência a todo e qualquer momento. A questão é mais estrutural que contingente. Maior velocidade, maior preparo físico e mais grana transformaram o futebol de um esporte cadenciado e próximo da dança — o velho ludopédio — em negócio dinâmico, submetido à lógica corporativa da eficiência: hoje, o que vale é o Futebol S.A.; mas persistem todas as exigência do antigo esporte, lúdico e bem jogado.

A televisão e a internet tornaram acessíveis e repetitivos os melhores jogos e lances do passado. E alçaram os grandes momentos do esporte a um estatuto de paradigma inatingível. Jornalistas, comentaristas (muitos deles ex-craques), locutores exigem desempenho de excelência, o tempo inteiro. A TV e seus atores — publicidade, celebridades, apresentadores, narradores — transformaram o futebol em espetáculo e em massacre.

Não há Ronaldinho Gaúcho ou Cristiano Ronaldo, não há Messi nem Ballack, não há Et’o nem Beckham, Imperador ou Fenômeno que estejam confortáveis em seus papéis. Precisam provar a cada jogo que merecem o culto e a grana que recebem.

Mesmo os ditos padrões civilizatórios da FIFA, como o fair play e a proibição de manifestações políticas e religiosas em campo, têm como objetivo máximo e último conservar o futebol no domínio da cultura midiática, sem interferências de outras ordens. Trata-se de tornar o ludopédio um negócio protagonizado por jogadores e técnicos que são estrelas, mas não têm direito a personalidade e à própria história.

Não é novidade e não é de hoje, mas os efeitos continuam a se sentir e se agravar: o futebol se tornou onipresente. Já matou os domingos e as quartas-feiras à noite. Distorceu os parâmetros salariais. E o espetáculo criou uma situação irreal e inalcançável, que é a máquina de insatisfação geral: é preciso dar show, ser encantador, mágico, fenomenal e fabuloso, e ao mesmo tempo ser artilheiro, eficiente, guerreiro, matador.

Depois, ninguém entende por que alguns jogadores flertam com travestis, traficantes, pastores e pagodeiros. É a vida real que precisa respirar. É a parcela da sociedade que não se quer anônima — brincando com o perigo, com a liberdade e com a arte das tentações e do desastre iminente.

* Texto pPublicado originalmente na revista Continuum número 27, agosto/setembro de 2010

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